Pular para o conteúdo principal

MEMÓRIA DE MARAGOGIPE: Osvaldo Sá, o socialista - Parte II

Carlos Laranjeira

Entre os filhos mais ilustres das letras de Maragogipe, Osvaldo Sá deve ser compreendido como historiador, pois na arte de narrar histórias ele não tem comparação nos limites da cidade e provavelmente em todo o Recôncavo.

Se eu tivesse de encontrar um historiador brasileiro para procurar relações de semelhança com ele citaria Caio Prado Júnior, a despeito de Osvaldo não ter saído de família rica e influente e não ter tido a formação acadêmica do autor de A Formação do Brasil Contemporâneo, mas do ponto de vista ideológico são parecidos, sim.

Ambos eram socialistas e críticos do capitalismo que concentra a riqueza nas mãos de poucos e a pobreza e a miséria entre muitos, faziam a defesa do marxismo e a posse da terra a todos os brasileiros indiferentemente de religião, partidos ou raça.

Esse maragogipano, nascido no distrito de Guaí e falecido em 2002 aos 94 anos, podia ter sido um historiador de projeção nacional com a fama de Caio Prado Júnior se, ao transferir-se para o Rio de Janeiro em 1929 em busca de espaço para as suas idéias, não tivesse sido prejudicado pela revolução de 30, a qual levou Getúlio Vargas ao poder.

Essa revolução empastelou o Correio Paulistano, em São Paulo, A Manhã, de Mario Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro e, posteriormente, com a ditadura do Estado Novo impôs censura à imprensa, tornando escasso o número de vagas nas redações de jornais e de publicações de livros.

Osvaldo então teve de retornar a Maragogipe, onde viria a ser o primeiro socialista digno de influência. A sua doutrina de reforma da sociedade capitalista para diminuir as desigualdades opunha-se ao integralismo, um princípio de tendência nacionalista e de exaltação aos símbolos nacionais concebido por Plínio Salgado.

Defensores mais notórios do princípio integralista em Maragogipe foram Monsenhor Florisvaldo José de Souza, o Dr. Odilardo Uzeda Rodrigues, Manoel Lucas Laranjeira (o Bibi Laranjeira) e Onésimo Barbosa, (o Nésio corcunda), mas, a despeito de não se entenderem com Osvaldo no campo das idéias políticas, respeitavam-no.

Nos anos 60, Osvaldo Sá influiu nas ideias de um grupo de jovens maragogipanos entre eles os ginasianos Carlos Alberto dos Santos, o Charli, filho de Pule e Romildo Azevedo, o Mimiu, do Cajá, dos quais guardo em minha memória boas recordações. Mimiu, que viria a ser funcionário da agência do INSS, tornou-se um socialista exaltado, mas era uma pessoa agradável, de conversa cativante, quem eu, Carlos Alberto e Jorge Manta Malaquias levamos para o Centro de Cultura e Ação (Ceca) e por essa razão acabamos expulsos com ele do Centro.

Talvez em respeito à maioria católica de Maragogipe, Osvaldo não fazia propaganda ruidosa nem do socialismo nem do marxismo, ou melhor, das idéias de Karl Marx integrantes do pensamento socialista. Essas ideias sustentam ser o homem feito de matéria e a matéria única realidade, em contradição com o catolicismo, que segue os ensinamentos de Jesus Cristo.

Osvaldo Sá e Caio Prado Júnior assemelhavam-se nas idéias filosóficas e políticas. Mas, deixando de lado a política e a filosofia de ambos, há de se reconhecer neles algumas contradições: Caio viveu da venda de livros, era como historiador superior a Sérgio Buarque de Hollanda (pai de Chico) e só não deu aulas na Universidade de São Paulo por causa dos militares, à época, donos do poder. Osvaldo foi um autodidata, razão pela qual não deu aulas em ginásios ou faculdades nem viveu da venda de livros e sim do trabalho como escrivão do Juizado de Maragogipe, mas realizou uma obra de natureza histórica digna de ser imitada. Então, todo estudioso da história de Maragogipe há de se concentrar na figura de Osvaldo Sá como historiador, para depois tratá-lo como poeta e folclorista.

Jornalista, Carlos Laranjeira é autor de livros. Nascido em Maragogipe, encontra-se em São Bernardo do Campo desde 1973.

Comentários

Top 5 da Semana

Fotos antigas de São Félix, no Recôncavo da Bahia

Desde as primeiras décadas de sua existência a fotografia já mostrava o seu imenso potencial de uso. A produção fotográfica de unidades avulsas, de álbuns ou de coletâneas impressas abrangia um espectro ilimitado de atividades, especialmente urbanas, e que davam a medida da capacidade da fotografia em documentar eventos de natureza social ou individual, em instrumentalizar as áreas científicas, carentes de meios de acesso a fenômenos fora do alcance direto dos sentidos, as áreas administrativas, ávidas por otimizar funções organizativas e coercitivas, ou ainda em possibilitar a reprodução e divulgação maciça de qualquer tipologia de objetos. (leia mais em Fotografia e História: ensaio bibliográfico ) Neste sentido, a disponibilização de imagens fotográficas para o público leitor deste blog, é uma máxima que nós desejamos, pois a imagem revela muitos segredos.  Para ver mais fotografias: VISITE NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK Enchente em São Félix - cedido por Fabrício Gentil Navio da...

Um pouco da História da Filarmônica "Dois de Julho"

Por Zevaldo Luiz Rodrigues de Sousa Professor de História - Formado pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia Data de Publicação: 07 de setembro de 2010 Uma das principais filarmônicas da cidade, a “Filarmônica Dois de Julho” é fruto do desejo de músicos instrumentistas das antigas filarmônicas e recreativas que existiam nesta cidade, antes da sua fundação em 7 de setembro de 1886. A “Mnemósine” foi a primeira filarmônica existente no município, mas não durou muito, extinguindo-se em menos de uma década. Desta surgiram três instituições: Como os seus músicos eram dignos de assim serem chamados, fundaram a “Filarmônica Terpsícore Popular”, a “Sociedade Musical Euterpe” e em 1886, a “Recreativa 2 de Julho”, esta última somente com o propósito de ensinar danças à juventude. Todavia, os associados da “Sociedade Musical Euterpe” entraram em divergências por motivos não encontrados nos documentos, dissolvendo-se, muito mais rápido do que a sua entidade materna, a ...

Uma Breve História de Maragojipe, por Osvaldo Sá

Obs.: Este blog é adepto da grafia Maragogipe com o grafema G, mas neste texto, preservamos o uso da escrita de Maragojipe com o grafema J defendida pelo autor. Uma Breve História de Maragojipe Por Osvaldo Sá A origem do município de Maragojipe, como a de tantos outros municípios do Recôncavo Baiano, remonta ao período do Brasil Colonial, durante o ciclo da cana-de-açúcar. Conta a tradição popular que a origem do município deveu-se à existência de uma tribo indígena denominada “Marag-gyp”, que se estabeleceu em meados do século XVI às margens do Rio Paraguaçu. Destemidos e inteligentes, mas adversos à vida nômade, esses indígenas dedicavam-se ao cultivo do solo, à pesca e a caça de subsistência, manejando com maestria o arco e flecha e também o tarayra (espécie de machado pesado feito de pau-ferro), com o qual eram capazes de decepar de um só golpe a cabeça do inimigo. Osvaldo Sá, 1952 - Aos 44 ano Segundo a tradição da tribo, os mais velhos contavam que suas pri...

Fichamento de Texto: Definição do Fenômeno Religioso e da Religião, Émile Durkheim

Por Zevaldo Sousa No livro "Definição do Fenômeno Religioso e da Religião" escrito por Émile Durkheim, o autor tem por objetivo “ saber qual a religião mais primitiva e a mais simples ” (p. 3), para isso ele busca definir, o que convém entender por religião, para não sairmos por aí chamando de religião qualquer “ sistema de idéias e práticas que nada teria de religioso, ou deixar de lado fatos religiosos sem perceber sua verdadeira natureza ” (p. 3). Para isso, devemos ter cuidado ao procurarmos definir uma religião como a primeira e também devemos ter cuidado ao definir um sistema de idéias como religioso, a saber, é imprescindível e aceitável que podemos apontar um número de sinais exteriores, que permita estar reconhecendo os fenômenos religiosos onde quer que se encontrem, e impedindo que os confundamos com outros, na verdade é que os seres humanos foram obrigados a criar a noção do que é religião e religioso, mesmo que não acreditemos em alguma religião, nós pre...

O Terreiro Ilê Axé Alabaxé,– “"A Casa que Põe e Dispõe de Tudo"

É com muito pesar que noticiamos o falecimento do Babalorixá Edinho de Oxóssi, será muito justo neste momento, republicarmos a história do Terreiro lIê Axé Alabaxé,– “"A Casa que Põe e Dispõe de Tudo", um local com que o nosso babalorixá tem suas intimidades reveladas. Sabendo que seria do agrado de muitos maragogipanos que desejam conhecer a nossa história, resolvi publicar esse texto e uma entrevista concedida pelo Babalorixá Edinho de Oxóssi encontrada no site ( http://alabaxe.xpg.uol.com.br/ ) Oxóssi O Terreiro lIê Axé Alabaxé,– “"A Casa que Põe e Dispõe de Tudo"   A cada ano, após a colheita, o rei de Ijexá saudava a abundancia de alimentos com uma festa, oferecendo à população inhame, milho e côco. O rei comemorava com sua família e seus súditos só as feiticeiras não eram convidadas. Furiosas com a desconsideração enviaram à festa um pássaro gigante que pousou no teto do palácio, encobrindo-o e impedindo que a cerimônia fosse realizada. O rei mandou chamar os...