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Tradição do São João do Interior é sufocada por “atrações” milionárias



“São João passou por aí?” Era assim, numa época quando as pessoas faziam questão de comemorar o dia de São João de porta-em-porta. Naquele tempo, o melhor do São João era o contato com as famílias, com os amigos… As mesas fartas eram a base da festa. Cada casa fazia sua canjica, cozinhava seu milho e preparava o seu licor de jenipapo. A fogueira não era vendida, era repartida, o milho era assado no braseiro que se formava enquanto ardente a fogueira iluminava as noites frias e aconchegantes. O Cheiro de fumaça ainda permanece na memória e os olhos ardendo choravam de alegria involuntária por ter ali, em cada lar, uma recepção de rei.  Cada pessoa fazia seu São João, não haviam os “enlatados” de hoje em dia, o forró ainda era comandado por trios que faziam a sonorização da festa com zabumba, triângulo e as sanfonas de oito baixos… claro que quem não tinha como convidar o grupo, usava as Tartecas Linear, com seus vinis com som de pipoca na panela a estourar.  Daí veio o Forró do Cais, que como novidade, era o maior barato. Logo de cara me dei conta de que não tinha queijo-cuia no cajá e o licor não era mais de graça…a Bebida mudou, mesmo com frio, a cerveja tomou conta da festa e a tradição da música foi substituída pelas grandes bandas da capital que tocavam a “música do trio”. A partir daí, os ovos de ouro que era a tradição cultural da cidade se transformou em omelete e, com o passar do tempo, até a galinha foi morta para servir de ensopado. Maragojipe hoje convive com as críticas daqueles que foram viciados pelas gestões públicas, que como traficantes, vendiam uma festa que não tem como se sustentar haja vista as cidades vizinhas que trabalham o ano todo por esse momento. Cidades como Amargosa, gastam quase 1 milhão de reais nessa festa, a receita mensal de Maragojipe praticamente torrada em 3 dias de festa. As críticas já começaram. “Bandas ruins”, “vou pra outra cidade”, etc. Agora é a hora de Maragojipe transformar o São João em Patrimônio Imaterial da Bahia, trazendo de volta aquilo que sempre encantou aos visitantes de nossa cidade, o aconchego do povo. Revigorar a tradição, manter nossa cultura e expulsar de vez esse fantasma que a cada ano povoa a cabeça de nossos governante: “Quem vamos contratar esse ano?”. Assim, quem sabe, não poderemos voltar a beber nosso licor, comer nosso amendoim e quem sabe, ainda, perguntar aos amigos: “São João passou por aí?”.

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